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JOVEM PASTOR

As arvores começam a arrebentar seus brotinhos.  Discretos, verdes cor de azeitona enfeitam as árvores. Observo que aumentam os passarinhos a chilrear e também o povo sorri e é mais gentil.

Um rapaz de boina e mochila dispõe-se a levantar para que viaje sentada no ônibus. Aceito. Logo depois uma senhora que deve ser alemã senta-se ao meu lado. Pelo celular conversa com alguém e reconheci algumas palavras ditas por uma colega que morou em Colônia. De repente desce e entra na Mercedes prata, onde o motorista uniformizado buzinou apenas uma vez. Fidalgamente, lá foi ela no carro da família.

O jovem volta a sentar-se ao meu lado e comenta: – Veja só, sou assinante de alguns jornais e saí nervoso de casa, após o pronunciamento de Christine Lagarde em Londres. Ao discursar, Chatham House, a diretora-gerente do FMI afirmou que os bancos do bloco poderiam de fato enfrentar problemas de liquidez em caso de reestruturação das dívidas soberanas na periferia da Europa e podem precisar de recapitalização. Relatório divulgado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) nesta segunda-feira mostra que a poluição do ar no Rio e em São Paulo chegou a níveis tão elevados que pode ameaçar a saúde dos que vivem nas metrópoles. O que é que faço?

- Já reparou como estão verdinhas as folhas de nossas árvores? É a primavera com seus perfumes, calores e flores!

- E as novidades horríveis publicadas nos jornais! Já abriu quaisquer jornais e encontrou boas notícias? Ninguém escreve que as árvores estão cheias de brotos e a cidade vai tornar-se mais cheirosa com as magnólias, os flamboyants, as orquídeas e as rosas. A senhora talvez diga que o século XXI está mais sisudo, dado a banqueiros e economistas. E a corrupção brasileira?!… Já se esqueceu do famoso Lalau?

- Como lhe sou grata, rapaz! Primeiro, por oferecer-me seu lugar, segundo, por ter uma cabeça pensante tão boa!

- Quem está grato sou eu! Que bom humor a senhora tem… A primavera é muito fútil, senhora!  Quer amenizar as cruezas múltiplas da vida com flores e humores? Também digo que europeus se virem com seus problemas de liquidez! Que o meio-ambiente se dilua nas nuvens das queimadas! Posso-lhe contar um segredo? Viajo para a África no mês de novembro e quero fazer alguma coisa por aquele povo, no qual já chega a 14 milhões o número de vitimas da crise da fome! Sou pastor da Universal!

- Tarefa difícil! Tão jovem! Sopra um ventinho fresco e desanimo de ouvir o jovem reverendo. É ponto final!

Em casa, passo minutos debaixo do chuveiro, canto uma canção de Chico, visto a camisola azul e as meias de lã feitas pela mana Dely, depois vejo a novela das 9, acomodada na cama quentinha.

ALAIDE DAS FLORES

 

Alaíde, morena flor, é como a Maria Rosa de Dorival Caymmi. A flor no cabelo, fosse de tecido, fosse de couro ou natural. É mania que tem desde os 12 anos. A Dinda foi responsável por esse hábito. Toda vez que enfeitava sua afilhada para sair ou ir a uma festa qualquer, vinha com o pacotinho de papel de presente. Nem precisaria abrir, porque sabia ser mais uma rosa. Penteava-lhe os longos cabelos negros e delicadamente colocava a rosa. Logo, olhava-se no espelho e elogiava-se: – Veja só como fiquei bonita! A tia e madrinha concordava, ao abrir o mais belo sorriso, que ressaltava suas covinhas.

Maria das Graças, a dindinha, alegre, comumente de alto astral, cantava em seguida: “Alaíde Morena, onde vais morena Alaíde/ Com essa rosa no cabelo e esse andar de moça prosa/ Morena bela!/ Vai depressa!/ que o samba está esperando pra te ver!/ Deixa de lado esta coisa de dengosa! /Anda Alaíde!/ Deixa de lado esta pose e vem pro samba, vem sambar!/ Que o pessoal tá cansado de esperar, oh! Alaíde!/ Que o pessoal tá cansado de esperar!’

-  Não é Alaíde, dinda! É Rosa! Gosto tanto do famoso baiano Dorival Caymmi e sempre que caminho pelo calçadão,  paro para conversar com ele. Uma pena que moramos tão longe da Zona Sul! Se pudesse, gostaria de morar em Copacabana!

- Talvez futuramente, quando ganhar na loteria!

- Vou a Copacabana hoje, sim?

- Use o vestido verde água que lhe cai bem!3

Foi e na verdade chamava atenção por sua beleza de mulher de 22 anos!

Como acontece na vida das mulheres bonitas, David, gringo norte-americano, viu, encantou-se e chegou-se perto dela. Elogiou a sua rosa e até foi mais além ao dizer que a rosa era gloriosa por ter a ousadia de enfeitar uma moça tão linda!

A lenga-lenga do rapaz de 30 anos agradou Alaíde, que não teve jeito de dispensar o convite para um jantar à luz de velas, a dois. Vai ser no meu apartamento da Barra, só você e eu! Use a rosa amarela! Venha!

Entraram em uma loja de Ipanema e David escolheu o mais belo e caro vestido apropriado para a noite.

- Quero preto, pois vai destacar minha rosa!

- Escolha! Quem vai decidir é você!

Rosa encantou-se pelo vestido plissado de cetim preto, o qual lhe realçava as bem feitas curvas.

David teve uma reação surpreendente. Avermelhou-se como uma maça madura, disfarçou e concordou com ela. Perfeito! Perfeito! Perfeito!

Alaíde também escolheu belos sapato e bolsa.

O americano, de boca aberta, elogiava a morena sem parar.

À noite, sob os olhares atentos da Dinda, depois de um banho de banheira com alguns sais, vestiu-se, calçou o lindo sapato, maquilou-se e então  Maria das Graças colocou a bela rosa amarela sobre seus cabelos negros como as asas da Graúna.

- Que bela!

O gringo, pontual, estacionou o carro as nove e quarenta e cinco em frente do prédio onde morava a eleita do seu coração, pelo menos naquela noite.

Tocou a campainha e foi a Dinda que o recebeu, com certa desconfiança. Enfim, os tempos são outros, diferentes da época em que era moça. Naquele tempo, não era de bom tom sair com um rapaz a quem não se conhece bem e ir jantar no apartamento dele! Mas, vivia-se uma nova época!

- Muito maravilhosa você está! – elogiou David, com seu português enrolado.

Saíram. Ele a tomou pelas mãos e delicadamente abriu a porta do carro, ajeitando-a sobre o banco de couro.

Entrou no carro, sem antes dar boa-noite à madrinha de Alaíde, que o olhava com medo. Sabei-me lá que é ele? – perguntou-se, silenciosamente. Rezou um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, a implorar que cuidassem dela.

A distância entre Grajaú e a Barra era longa. Ele notou que a jovem não estava muito à vontade ao seu lado.

- Não precisa ter medo, porque sei respeitar uma bela mulher! Fique calma, Alaíde!

Chegaram ao amplo apartamento. A mesa estava posta e havia rosas em quase todos os espaços. Sala de visita, de jantar e até no quarto, que aos poucos lhe mostrou.

Ela nada falou ou elogiou. De repente, a sufocação era tanta que as lágrimas saltaram de seus olhos e escorriam pelo rosto. Soluçava.

Depressa David ofereceu-lhe água. Tomou e, sem jeito, pediu-lhe para levá-la de volta para casa.

-Sou alérgica e não estou bem!

- Vamos jantar! Preparei uma lagosta saborosa para nós!

- Lagosta? Sou alérgica a frutos do mar! Please! Leve-me!

Uma onda de sangue subiu ao rosto do americano, que se abalou com a situação. Ela não parava de chorar!

- Vamos! Não vou obrigá-la a nada!

Alaíde contou-lhe da alergia que a prejudicou em diferentes ocasiões. Fiz testes há poucos dias e o pneumologista enfatizou que não posso comer peixes e frutos do mar, pois meu sistema respiratório é delicado. Fungos? Deus me livre! Além de falta de ar, sofro de rinite.

David procurou se segurar, mas explodiu. Reclamou sobre o fato de não tê-lo avisado sobre essa maldita alergia.

- E deu tempo? Você foi apressado! Nada me perguntou sobre a saúde…

Mudos fizeram igual trajeto de volta ao Grajaú. Chegaram!

Tampouco lhe abriu a porta do carro e nem lhe disse até outro dia. Arrancou-se no carro preto importado.

Ao entrar, viu a Dindinha ajoelhada aos pés de Nossa Senhora de Fátima.

 

A vida é um ilusão material. Hoje vejo tudo com as cores da realidade. Vejo luzes no céu e todos os obstáculos somem da minha vida,

Minha luz interior está ligada a DEUS. Eu e o PAI somos UM, o PAI vive em mim e eu vivo no PAI! O PAI é maior do que eu,

Mão-de-vaca

 

 

 

                 Quando era menina de 13 anos vivia lendo até bula de remédio, Dick, meu amigo de longas datas, disse-me que o filósofo Pascal acreditava que nunca amamos ninguém, só as qualidades. Contudo, ao observar Olivio Dias, morador de Alta Floresta, descobriu que conseguia amar determinadas pessoas que não possuem qualidades que imaginamos. Por exemplo, Taís, vizinha de Olívio, chegou a negar-lhe três ovos emprestados, porque batia um bolo e não podia deixar para depois. O comércio estava fechado! Ela alegou que também não comprara ovos. .

 

Ricardo sorriu, ao comentar o acontecido, ressaltou ‘a mentira tem perna curta’, é um ditado antigo, mas sempre presente em nossa vida.

Dia seguinte, Lélio, neto de Olívio estava brincando de bilboquê com Luis Alberto, e sentiu sede. O amigo mandou que fosse apanhar na geladeira. Era uma amizade desde criança, tanto de seus pais como dos dois, que eram filhos únicos. Ao abrir a geladeira, decepcionado, viu duas dúzias de ovos arrumados na porta interna da Brastemp. Olhou sério para ele e declarou que a amizade entre eles estava terminada naquela hora.

- Ora, que foi que eu fiz? – perguntou.

- Você, nada! Mas Taís, sua mãe é uma grande mão-de-vaca! Papai pediu que ela lhe emprestasse três ovos e teve a coragem de afirmar que não tinha nenhum. Abri a geladeira, por acaso, para tomar água, e vi duas dúzias de ovos. Amizade assim não me interessa e aquilo que fazem aos meus familiares também me atinge! Saiu esbaforido pela porta da cozinha.

Constrangido com a reação de Lélio, Luizinho subiu ao andar de cima, onde sua mãe balançava-se na rede, meio adormecida. Gritou com ela: Mão-de-vaca! Mão-de-vaca! Não é só comigo que nega tudo, até o curso de inglês que quero fazer! Não quis emprestar apenas três ovos ao seu Olivio, não é?

- Escuta aqui, venho de uma família que foi lavradora no Sul do país e agora que acumulei uma fortuna razoável e faço viagens internacionais anualmente, vou começar a emprestar ovos aos pais de seus amigos? Seu avô era da Armênia e sabia muito bem o que é passar fome na II Guerra Mundial. Ele me ensinou a dizer ‘não’ fosse lá a quem fosse. Perdeu o amigo? Arranje outro que seja da sua laia e não neto de um homem que não tem vergonha de pedir três ovos à vizinha! 

- Ele ia devolver-lhe os ovos.

- Quem me garante! Uma parte de tudo que Taís tinha (ações nos bancos, apartamentos alugados, fazenda no pantanal e duas padarias), com certeza seria do filho. Os valores morais deles é que não se igualavam aos da mãe. Valorizava a amizade mantida com Lélio.

- Vou pedir desculpas ao meu amigo e vou valorizar nossa amizade até morrer! Se ele quiser ficar longe de você, balançou os ombros, nem ligo! A amizade dele tem muito valor para mim, saiba, sua mão-de-vaca! Talvez seja mais meu amigo que você, insensível, vaidosa, egoísta, que tampouco gosta de mim!

  Taís tinha muito dinheiro, não que produziu, mas o que sua família lhe deixou de herança.

Disse mais ao filho: – Pague a si primeiro. Não compre ao fazedor de roupas ou ao fazedor de sandálias mais do que possa pagar com o restante, devendo ainda separar o bastante para alimentar-se. Quanto ao próximo, que se vire! Não devo obrigações aos deuses. Não creio em Deus! Sou satanista! Quero sombra e água fresca! Vovô Lazaro sempre me aconselhou que nossas economias terão que ser guardadas pela vida inteira!

Ao completar 21 anos, Luiz Felipe decidiu viajar para a Austrália e exigiu que a mãe lhe entregasse a sua parte. Arrumou um ótimo advogado e recebeu quase metade da fortuna. Fez mais, convidou Lélio para ir com ele estudar inglês, que bancaria sua parte.

Até hoje Lélio e Luiz Felipe são bons amigos. Casaram e seus quatro filhos (dois de cada) também são companheiros e parceiros na empresa de engenharia de seus pais.

Dizem, quando reunidos com suas famílias: – Mesmo que as pessoas não sejam do mesmo time, nem da mesma religião, nem do mesmo partido político amigos são amigos para toda a vida. É preciso compartilhar as recordações e ser feliz!

Lélio torce pelo Santos e é do PT. Luiz Felipe pelo Palmeiras e filiou-se ao Partido Republicano.

Martha Arrud Dias de Piva

 

 

 you think peace in the middle east is possible?.

Mão-de-vaca

 

 

 

                 Quando era menina de 13 anos vivia lendo até bula de remédio, Dick, meu amigo de longas datas, disse-me que o filósofo Pascal acreditava que nunca amamos ninguém, só as qualidades. Contudo, ao observar Olivio Dias, morador de Alta Floresta, descobriu que conseguia amar determinadas pessoas que não possuem qualidades que imaginamos. Por exemplo, Taís, vizinha de Olívio, chegou a negar-lhe três ovos emprestados, porque batia um bolo e não podia deixar para depois. O comércio estava fechado! Ela alegou que também não comprara ovos. .

 

Ricardo sorriu, ao comentar o acontecido, ressaltou ‘a mentira tem perna curta’, é um ditado antigo, mas sempre presente em nossa vida.

Dia seguinte, Lélio, neto de Olívio estava brincando de bilboquê com Luis Alberto, e sentiu sede. O amigo mandou que fosse apanhar na geladeira. Era uma amizade desde criança, tanto de seus pais como dos dois, que eram filhos únicos. Ao abrir a geladeira, decepcionado, viu duas dúzias de ovos arrumados na porta interna da Brastemp. Olhou sério para ele e declarou que a amizade entre eles estava terminada naquela hora.

- Ora, que foi que eu fiz? – perguntou.

- Você, nada! Mas Taís, sua mãe é uma grande mão-de-vaca! Papai pediu que ela lhe emprestasse três ovos e teve a coragem de afirmar que não tinha nenhum. Abri a geladeira, por acaso, para tomar água, e vi duas dúzias de ovos. Amizade assim não me interessa e aquilo que fazem aos meus familiares também me atinge! Saiu esbaforido pela porta da cozinha.

Constrangido com a reação de Lélio, Luizinho subiu ao andar de cima, onde sua mãe balançava-se na rede, meio adormecida. Gritou com ela: Mão-de-vaca! Mão-de-vaca! Não é só comigo que nega tudo, até o curso de inglês que quero fazer! Não quis emprestar apenas três ovos ao seu Olivio, não é?

- Escuta aqui, venho de uma família que foi lavradora no Sul do país e agora que acumulei uma fortuna razoável e faço viagens internacionais anualmente, vou começar a emprestar ovos aos pais de seus amigos? Seu avô era da Armênia e sabia muito bem o que é passar fome na II Guerra Mundial. Ele me ensinou a dizer ‘não’ fosse lá a quem fosse. Perdeu o amigo? Arranje outro que seja da sua laia e não neto de um homem que não tem vergonha de pedir três ovos à vizinha! 

- Ele ia devolver-lhe os ovos.

- Quem me garante! Uma parte de tudo que Taís tinha (ações nos bancos, apartamentos alugados, fazenda no pantanal e duas padarias), com certeza seria do filho. Os valores morais deles é que não se igualavam aos da mãe. Valorizava a amizade mantida com Lélio.

- Vou pedir desculpas ao meu amigo e vou valorizar nossa amizade até morrer! Se ele quiser ficar longe de você, balançou os ombros, nem ligo! A amizade dele tem muito valor para mim, saiba, sua mão-de-vaca! Talvez seja mais meu amigo que você, insensível, vaidosa, egoísta, que tampouco gosta de mim!

  Taís tinha muito dinheiro, não que produziu, mas o que sua família lhe deixou de herança.

Disse mais ao filho: – Pague a si primeiro. Não compre ao fazedor de roupas ou ao fazedor de sandálias mais do que possa pagar com o restante, devendo ainda separar o bastante para alimentar-se. Quanto ao próximo, que se vire! Não devo obrigações aos deuses. Não creio em Deus! Sou satanista! Quero sombra e água fresca! Vovô Lazaro sempre me aconselhou que nossas economias terão que ser guardadas pela vida inteira!

Ao completar 21 anos, Luiz Felipe decidiu viajar para a Austrália e exigiu que a mãe lhe entregasse a sua parte. Arrumou um ótimo advogado e recebeu quase metade da fortuna. Fez mais, convidou Lélio para ir com ele estudar inglês, que bancaria sua parte.

Até hoje Lélio e Luiz Felipe são bons amigos. Casaram e seus quatro filhos (dois de cada) também são companheiros e parceiros na empresa de engenharia de seus pais.

Dizem, quando reunidos com suas famílias: – Mesmo que as pessoas não sejam do mesmo time, nem da mesma religião, nem do mesmo partido político amigos são amigos para toda a vida. É preciso compartilhar as recordações e ser feliz!

Lélio torce pelo Santos e é do PT. Luiz Felipe pelo Palmeiras e filiou-se ao Partido Republicano.

Martha Arrud Dias de Piva

 

 

 you think peace in the middle east is possible?.

Cotidiano

O metrô fervilhava de gente, feia, gorda, bonita, crianças, moços, adultos e velhos de bonés. Dois policiais, à distância, observavam o movimento. A cada minuto aumentava o barulho.
Três senhoras com os cabelos presos reclamavam das suas necessidades. Júlia, de óculos de grau fundo de garrafa, tenta ler o jornal e quer ficar por dentro das últimas notícias. Não dá. Quase não enxerga. Reclama que necessita ir ao médico, não só para ver a fraqueza dos olhos, mas ainda pelas fortes dores de cabeça. Nicliéia, magra como Olívia Palito, queixa-se do marido, Roque, a quem chama bandidão. Esbraveja que não traz comida para casa e vive no boteco do Oscar, a quem já deve dever uma fortuna. Nadir, irmã do temido bandido Gato Angorá, foragido da polícia, reclama que não quer por o filho na creche, porém tem que trabalhar de qualquer jeito. É mãe solteira.
As mulheres, em grande proporção, reclamam da distância que as separam de seus filhos, uma vez que são obrigadas a deixá-los por conta de parentes ou em uma creche. PQP… O tratamento que recebem é péssimo. Raul reclama que em certos dias só come angu e banana. Eu tenho que dar um duro danado nas casas de certas madames. Madame Eurídice, madame Vera, Madame Zélia… São todas iguais, figuras do mesmo naipe, dão a ordens e passam a manhã inteira a fofocar com as amigas pelo telefone ou a mandar e-mais a umas e outras. Sentam-se à mesa e depois de comer gulosamente, reclamam da comida. – Estava péssima! Vê se melhora ou vai para o olho da rua! Depois deitam e dormem uma meia hora. Tão logo levantam, tomam banho, vestem roupas bonitas e caras , sapatos de bico fino ou botas, bolsas francesas que compram em Miami, e se mandam sei lá pra onde. Eita vida!
Uma tal de Doralice, estudante de Psicologia, entende que pode resolver todos os problemas da comunidade. Com certeza, na próxima eleição vai ser candidata a vereadora!!! Aconselha-nos a buscar as Comissões Pastorais, ONGs, clubes de serviço e até a LBA, para ganharmos cestas básicas. Já viu bem o que tem na cesta básica? Dona Zilma recebe uma, e tem que buscar na Praça Mauá. E a pobre coitada não chega sequer à metade do mês com os mantimentos. É uma vergonha! Os filhos são magrinhos e pálidos!
Uma dupla de mulheres de cabelos pintados de loiro comenta sobre o caso da Tonica, mãe do Etevaldo, que se meteu na bandidagem e num assalto a uma tinturaria do chinês foi apanhado pela polícia. Amanheceu com formiga na boca. A polícia nem quis enterrar o coitado! A turma do morro fez subscrição e conseguiu comprar um caixão barato.
- Segure meu casaco, pois vou à padaria para ver se consigo a vaga de confeiteira. Bolo eu faço e com muito bom gosto!
Um menino de seus 12 anos puxou o casaco das mãos de Wanda e saiu correndo. Como corre! Porque não se arrisca na Corrida de São Silvestre? Ainda podia ganhar uns trocados! Que fazer, tenho 70 anos e não tenho mais sebo nas canelas para correr atrás de um guri. Eita safado!
Uma japonesa aproximou-se e perguntou-me se sabia onde ficava o Hospital Evangélico.
– Não sei e nem quero saber! Evangélico, como o pessoal da igreja do bispo Macedo, não vale nada! Por que não vai à Santa Casa?
Uma crente que escutou a informação expressou verdadeiro ódio, avançou sobre mim e deu-me uma tapa na cara. Que dor! Não vacilei e retribui com mais força que ela. Do seu nariz escorria sangue. Demônio! – esbravejou, enxugando as narinas.
Sabe de uma coisa, Wanda demora e quem sabe já ficou trabalhando. Peguei o metrô para Nilópolis, e fui almoçar com uma amiga.

Lucélia e a homofobia

Que mulher baixinha! Dirigiu-se a um ponto alto no Jurerê e passou a observar os banhistas, brasileiros dos quatro cantos, argentinos, paraguaios e de outros países. Mar agitado, mas mesmo assim os banhistas dão seus mergulhos. Outros apenas se bronzeavam ao sol. Vários barcos estão em alto mar, quase se virando, mas os pescadores são experientes e equilibram-se.
Sebastiâo, marido de Lucélia, a baixinha, admira a mulher, pelo seu caráter ousado, impulsiva, irrefletida, que se mete em todas as brigas da vizinhança. Quando há uma encrenca qualquer, seja de crianças, adolescentes ou mesmo de adultos, surge alguém a chamá-la para resolver o desentendimento. Ambos são naturais de Campina Grande, Paraíba, e em Santo Antônio montaram um mercadinho. Muitos reclamam dos preços altos, porém Lucélia explica que para trazer a mercadoria até ali gastam mais que os supermercados centrais. Daí terem que cobrar mais caro. Muita gente prefere fazer compras no centro, apesar de carregar sacolas pesadas. Dona Livia, que todos chamam ‘mão-de-vaca’ geralmente volta da cidade com algumas sacolas recheadas.
Na frente da casa, Tião plantou duas palmeiras imperiais que, conforme explica, simbolizam o grande amor que os unem e também são altas, para diferenciar a baixa estatura do casal.
Assim que viu Lucélia viu Tião, desceu a cantar e veio a seu encontro. Junto estava tio João, tão bom, paternal e meio despersonalizado, conforme análise da mulher. Não faltava a missa das seis e era amigo do padre. Fanático, montou um altar da Virgem Maria no canto direito do seu quarto. Quando a mãe viu, quase desmaiou, criticou o exagero. Acostumou-se com o tempo.
Como o sol estava abrasador, os três arrumaram tudo e resolveram enfrentar a subida até o ponto de ônibus. Devagar foram embora, nisso passou um afeminado em companhia de seu amigo. Lucelia não agüentou e disse em voz alta: – isto é uma vergonha!
- Vergonha é a senhora ser tão feia e baixota. Sou gay e dai? Não sabe que há uma lei que proíbe discriminar pessoas de sexo diferente? Saiba que isto é homofobia, sabia? É o medo e desprezo pelos homossexuais. Por acaso a senhora não tem um parente gay!
- Que horror! Eu não!
- E esse homem que está ao seu lado? Sabe que é homossexual?
João saiu a correr pela ladeira, caiu e fraturou a perna direita.
Naquele momento o assunto morreu e todos foram socorrer João, que chorava como uma criança. Chamaram a ambulância da Prefeitura e foi removido para um hospital.
- Por favor, chega de moagem, se ele é gay não sei.
- Pois é. Conheço à distância… Viu? Ele sabe que é homossexual, senão não correria. O que a senhora sente é repulsa face às relações afetivas. Julga que só homem pode casar com mulher? Hoje, sua baixota, mulher casa com mulher e homem com homem, conforme o gosto de cada um ser feliz! Amarildo é meu marido, sabia? Somos felicíssimos!
- Perdão! Nem sabia o que é homofobia. Perdão! Nem sabia que o João, tão bom e gentil, é gay!
Buá… buá.. buá… Caiu num choro descontrolado e o marido pegou um táxi, no qual se enfiaram com suas traias.

WlADEMIR DIAS PINO

WlADEMIR DIAS PINO.

WlADEMIR DIAS PINO

Wlademir Dias Pino é uma das pessoas mais inteligentes que conheço. E gênio! Porém e humilde, tímido, fala baixinho, como se fosse um sopro ou um sussurro. Escritor, poeta, autor do Poema Processo, pintor, artista gráfico e meu melhor amigo. É alto, magro (no momento), mora no Catete há mais de cinqüenta anos.
Na juventude deixou seu nome em alguns cartórios e pediu que desse seu nome às crianças sem pai, assinou e reconheceu a firma. Tem horror que alguém seja chamado “filho da puta”.
Anos depois, apareceu uma moça em sua casa, que disse ser sua filha e necessitava de razoável quantia para pagar a faculdade, com vários meses de atraso Estudava Engenharia Civil. Exibiu a certidão de nascimento. Desconsertado, para não ferir a suscetibilidade da jovem, alegou estar passando por um período de dificuldade econômica e que não poderia dar-lhe nenhuma ajuda. A moça era briosa e nunca mais apareceu.
Contou-me que sua mãe rezava a Nossa Senhora das Cabeças, amedrontada com seu temperamento exótico.
Desde menino escrevia poesias, às escondidas, mas como seu Lúcio, o pai, descobriu o livro escondido debaixo do colchão, nervoso, rasgou todas as páginas e meteu fogo no fundo do quintal.
O pai era gráfico e no fundo orgulhava-se do filho ser poeta, mas lidar com seu gênio arrebatado não era fácil. A partir desse dia, ignorava suas poesias, se bem que quando ele fazia piquenique no Coxipó, lia todos seus poemas Comentou com a mulher: “Nosso filho vai longe! Alcançará lugar de destaque na intelectualidade! Lamento que seja tão birrento!”
Era contínuo o receio de sua mãe que um dia enlouquecesse, mas vigiava e orava a implorar pela sanidade do filho.
Não que Wlademir fosse desaforado, no entanto nem queria ouvir falar que era poeta. Era um segredo seu, que compartilhava com Benedito Sant’Ana da Silva Freire, notável poeta cuiabano, seu grande amigo e confidente.
Conforme a Wikipédia, Wlademir Dias-Pino, nascido no Rio de Janeiro em 1927 e tendo residido por um longo período em Cuiabá, é um poeta visual que participou da I Exposição Nacional de Arte Concreta, em 1956, tendo sido, ainda, um dos fundadores do poema/processo em 1967 e o primeiro autor a elaborar o conceito de “livro-poema”, com o poema A Ave considerado por Moacy Cirne e Álvaro de Sá o primeiro exemplo/exemplar conhecido deste tipo de poema. O que caracteriza o livro-poema é a exploração das característica físicas do livro como parte integrante do poema, tornando-os um só corpo físico, de forma que o poema só existe porque existe o objeto livro.
A Ave, elaborado a partir de 1954 e lançado apenas em abril de 1956, assumia já o elemento visual como principal agente estrutural do poema. Produzindo, a partir daí, uma concepção própria da poesia concreta, o poeta intencionava expressar, por exemplo, através de um gráfico o que necessitaria de um longo discurso verbal para ser dito. Assim sendo, seus poemas visuais incluem gráficos, perfurações, figuras, etc., além de caracteres escritos e, por vezes, chegam a abrir mão da palavra para tornarem-se puramente plásticos, não-verbais.
Diferindo da poesia concreta em sua essência, que via na paranomásia o principal motor da poesia, extrapolando o contexto da linguagem verbal, Dias-Pino trabalha com o simbólico e o metafórico, buscando uma espécie de metáfora pura.
Antonio Houaiss o considerou “um dos mais perspicazes pesquisadores visuais no Brasil”.

Na biblioteca da Tijuca

Reunia grupo de adolescentes e carregava-os à biblioteca da Tijuca. Ao chegar, eles se espalhavam.
Ergo os olhos, de cima para baixo, e meu coração fica oprimido pelo desleixo com que os livros foram arrumados. As prateleiras estão gastas. A bibliotecária justifica que as verbas para a Cultura são mínimas e a maioria dos livros é antiga.
Absorvida pela responsabilidade de escrever uma matéria de Direito, notei que pouca coisa encontraria.
Os garotos vieram porque prometi oferecer-lhe um lanche depois que lessem uma história, pelo menos. São do Salgueiro e pouco motivados a ler Escolheram livros de historias curtas.
Deixei-lhes à vontade. Olhei alguns livros muito antigos. Grande parte é muito velha. Alguns são raros e suas capas lhes fazem parecer importantes, pelas letras douradas da capa. Inebria-me rever livros de bons escritores. Parece que têm alma. Sei lá, parece-me desprender deles eflúvios daqueles que os leram. Sinto até os espíritos dos autores. Há no conjunto uma aura de alegria, dor, ilusão, fantasia, desespero, inquietação, paz e amor.
Li a dedicatória de Rui Barbosa a alguém de nome Ramiro. Quanta emoção! Imagino-o: baixo, pensativo, careca, óculos de lentes grossas, roupa em desalinho, um bloco de notas e a caneta. Curioso, peguei um livro de aproximadamente cem páginas. Pareceu-me ser intocado e na verdade era. O autor, desconfiado de que poucas pessoas se interessariam por ele, deixou uma nota de cem reais entre as paginas e um bilhetinho que dizia ser um presente para o primeiro leitor de sua obra. Ganhei! Na verdade, eram assuntos sem grande interesse. Questionava o papel da umbanda no Brasil. O estilo não era
dos melhores.. Com o dinheiro, assim que deixássemos a biblioteca,levaria as crianças para tomar sorvete ou fazer um lanche.
Os livros com lombadas de couro, de diferentes cores, fizeram-me lembrar de um vizinho, novo rico, que encomendou somente lombadas com títulos de bons escritores, pois não aceitava ser apenas rico, mas desejava ser visto como intelectual. De nada adiantou, porque seu falar era composto de palavras erradas, como talba, veiaco, pinchar, gavar, nhaca e outras. Nunca conseguiu enganar aos literatos e intelectuais, mas seu carro era do último tipo. Parecia o rei da Inglaterra, ao dirigir.
De repente as crianças reclamaram do lanche prometido e avisei-lhes de que iriamos a uma sorveteria ao sair dali. Foi uma algazarra enorme, mas preferiram comer salgados. ra hora do almoço.
Liza, a chefe da biblioteca, foi almoçar. Ficou apenas uma atendente e meus amigos do morro do Salgueiro. Pedi só mais meia hora e localizei o livro “Liza a Pecadora”, que li há vinte anos (calculei por ser o tempo de namoro com o Jarbas). O mesmo nome da diretora da Biblioteca, que coincidência! É uma narração sobre adultério na classe operaria. O realismo social de alguns escritores. Certamente Somerset Maugham entrou naquelas imperfeições de diálogos, que modificou e melhorou com o passar do tempo.
Saímos e fomos conversando. Contei-lhes sobre o aprendizado da língua portuguesa através das leituras.
A tarde estava quente e, além dos sanduiches, tomamos sorvete. Nunca vi tanta alegria brilho nos olhos dos pequenos. Prometi levá-los novamente à bibioteca.

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